Rev. Adm. Saúde (On-line), São Paulo, v. 26, n. 104: e457, jul. – set. 2026, Epub 26 out. 2026

http://dx.doi.org/10.23973/ras.104.457

 

 

PERSPECTIVAS

 

Inovação disruptiva na saúde: transformação digital, entrega de valor e assistência personalizada

Disruptive innovation in health care: digital transformation, value delivery and personalized care

 

Edinisia da Silva de Oliveira1

 

 

1. Graduada em Administração de Empresas. Servidora do Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de SP

 

 

 

RESUMO

As tecnologias digitais são componentes centrais da transformação digital da saúde e têm potencial para reduzir desperdícios e aumentar a sustentabilidade dos sistemas. A saúde baseada em valor propõe organizar o cuidado e a remuneração em torno da relação entre os resultados que importam ao paciente e os custos para obtê-los. Este artigo de perspectiva discute como inteligência artificial, dispositivos vestíveis, realidade aumentada e virtual, Internet das Coisas Médicas, impressão 3D e robótica podem contribuir para a entrega de valor e para a assistência personalizada, quais obstáculos limitam essa contribuição e como hospitais de referência têm divulgado suas iniciativas. As fontes não foram obtidas por revisão sistemática: foram utilizados de forma narrativa artigos, relatórios institucionais, notícias e sites de instituições de saúde. Os principais obstáculos identificados são o financiamento, a baixa interoperabilidade, a desigualdade de digitalização entre os setores público e privado, a proteção de dados, a governança ética da inteligência artificial e a escassez de evidências comparativas sobre desfechos e custos. Conclui-se que a transformação digital pode apoiar a mudança para um modelo centrado no valor, desde que cada tecnologia seja avaliada quanto a resultados e custos em cada indicação e acompanhada de governança de dados e de políticas de acesso no Sistema Único de Saúde.

Palavras-chave: Tecnologia Digital; Inteligência Artificial; Inovação Organizacional; Gestão em Saúde; Telemedicina.

 

ABSTRACT

Digital technologies are central components of the digital transformation of health care and have the potential to reduce waste and increase the sustainability of health systems. Value-based health care proposes organizing care and payment around the relationship between the outcomes that matter to patients and the costs of achieving them. This perspective article discusses how artificial intelligence, wearable devices, augmented and virtual reality, the Internet of Medical Things, 3D printing and robotics can contribute to value delivery and personalized care, which obstacles limit this contribution, and how leading hospitals have publicized their initiatives. Sources were not obtained through a systematic review: articles, institutional reports, news and health institutions' websites were used narratively. The main obstacles identified are financing, low interoperability, unequal digitalization between the public and private sectors, data protection, ethical governance of artificial intelligence and the scarcity of comparative evidence on outcomes and costs. Digital transformation can support the shift toward a value-centered model, provided that each technology is evaluated for outcomes and costs in each indication and accompanied by data governance and access policies in Brazil's Unified Health System.

Keywords: Digital Technology; Artificial Intelligence; Organizational Innovation; Health Management; Telemedicine.

 

 

 

 

INTRODUÇÃO

A saúde digital avançou menos que setores como entretenimento, varejo e finanças. Um dos principais entraves é o financiamento: em muitos países, não está definido quem deve pagar pelos serviços digitais, e o benefício é difuso, de modo que o pagador nem sempre vê retorno direto do investimento1. Ao mesmo tempo, o envelhecimento da população e dos próprios profissionais de saúde e o peso dos determinantes sociais pressionam os sistemas a fazer mais com os mesmos recursos, cenário que o Brasil compartilha com países europeus1.

A saúde baseada em valor (value-based health care) propõe alinhar os participantes do sistema em torno do valor entregue ao paciente, entendido como a relação entre os resultados que importam ao paciente e o custo total para obtê-los2,3. Na prática, porém, sua implementação ainda é parcial: em revisão de escopo, a maioria das instituições adotou apenas um ou dois componentes, sobretudo a medição de desfechos e custos, e as plataformas de tecnologia da informação apareceram em poucos estudos empíricos, com evidência escassa de efeito4.

Este artigo de perspectiva discute como tecnologias digitais, como inteligência artificial (IA), dispositivos vestíveis, realidade aumentada e virtual, Internet das Coisas Médicas, impressão 3D e robótica, podem contribuir para a entrega de valor e para a assistência personalizada, e quais obstáculos limitam essa contribuição. Ele dá continuidade a trabalho anterior da autora sobre inovações tecnológicas e estratégias de saúde digital voltadas à ampliação do acesso5.

Por se tratar de texto de perspectiva, as fontes não foram obtidas por revisão sistemática da literatura. Foram utilizados de forma narrativa artigos científicos, relatórios institucionais nacionais e internacionais, notícias e sites de instituições de saúde, selecionados pela autora por sua pertinência ao tema. Muitas das fontes sobre tecnologias específicas são revisões narrativas, e as informações sobre hospitais provêm da divulgação das próprias instituições ou da imprensa. Os exemplos apresentados ilustram tendências e não constituem evidência de efetividade ou de custo-efetividade.

 

TRANSFORMAÇÃO DIGITAL NO BRASIL E NO MUNDO

O Brasil tem avançado em iniciativas de saúde digital. A Estratégia de Saúde Digital para o Brasil 2020-2028, lançada pelo Ministério da Saúde, estabelece metas de integração de sistemas, capacitação de profissionais e transformação digital do Sistema Único de Saúde (SUS)6. A pesquisa TIC Saúde mostra aumento contínuo do uso de dispositivos, internet, sistemas eletrônicos e telessaúde nos estabelecimentos de saúde, mas a incorporação de tecnologias complexas, como a IA, ainda é limitada e concentrada em instituições privadas e em unidades com mais de 50 leitos de internação, o que evidencia desigualdade na digitalização do setor7.

No plano internacional, a Dinamarca lançou em 2023 uma estratégia com 25 iniciativas para 2024-2027, apoiada em três pilares: inclusão digital, sustentabilidade do bem-estar social e crescimento econômico pela exportação de tecnologia, em alinhamento com o Espaço Europeu de Dados de Saúde, que visa padronizar o compartilhamento de informações clínicas na Europa8.

 

TECNOLOGIAS DIGITAIS E ENTREGA DE VALOR

Inteligência artificial

Em comparação com outros setores, a saúde apresenta maturidade digital abaixo da média, e ainda não está claro se a IA impulsionará uma transformação ou se continuará restrita a ganhos marginais de eficiência. Nos Estados Unidos, mais de 70% das aprovações de dispositivos com IA pela Food and Drug Administration concentram-se em aplicações de imagem, a maioria ainda não implementada em larga escala9.

A IA tem potencial para apoiar o diagnóstico, sobretudo na interpretação de exames de imagem, para otimizar fluxos administrativos e para apoiar a vigilância epidemiológica e a gestão hospitalar10. Também pode apoiar gestores no preparo e na resposta a emergências sanitárias e na alocação de recursos11. Sua incorporação, entretanto, enfrenta desafios éticos, técnicos e regulatórios: proteção de dados, vieses nos dados de treinamento, transparência e explicabilidade dos algoritmos, responsabilização por erros e necessidade de governança e regulação específicas11. A tecnologia deve permanecer subordinada a esses princípios e ao cuidado centrado no paciente.

 

Dispositivos vestíveis

Os dispositivos vestíveis registram parâmetros como frequência cardíaca, glicemia, saturação de oxigênio, contagem de passos e gasto energético. Sua integração à assistência ainda está em estágio inicial, mas pode apoiar o diagnóstico, o monitoramento contínuo e a avaliação de intervenções12. Relógios inteligentes e sensores têm sido utilizados no acompanhamento de doenças crônicas, incluindo doenças cardiovasculares13, mas a escala de uso esbarra em limitações de hardware, baixa usabilidade, imprecisão de sensores, autonomia das baterias, uso inadequado pelos pacientes e baixa interoperabilidade entre plataformas12. A padronização de protocolos e a harmonização dos dados são condições para que esses dispositivos gerem resultados clínicos válidos e comparáveis12.

 

Realidade aumentada e realidade virtual

A realidade aumentada integra dados digitais ao campo de visão do profissional, permitindo visualizar estruturas anatômicas complexas e planejar procedimentos14. Em neurocirurgia, permite sobrepor imagens de tomografia e ressonância em modelos tridimensionais projetados sobre o campo cirúrgico e rastrear instrumentos em tempo real15. A realidade virtual, por sua vez, é usada em treinamento cirúrgico, reabilitação e tratamento de fobias14,15. No Brasil, a imprensa noticiou o uso de óculos de realidade mista em cirurgia pulmonar no Hospital de Base de Brasília, com software desenvolvido no Hospital Sírio-Libanês, aplicado também em hospitais privados16. A disseminação dessas tecnologias depende de reduzir o custo dos dispositivos e de capacitar as equipes, e seus benefícios ainda carecem de estudos comparativos de boa qualidade17.

 

Robótica

A cirurgia robótica oferece visão tridimensional ampliada e movimentos refinados, e revisões narrativas associam a técnica a menor perda sanguínea, menos dor e alta mais precoce em comparação a procedimentos abertos e laparoscópicos18. A relação entre resultados e custos, porém, varia conforme a indicação. No ensaio clínico randomizado ROLARR, a cirurgia robótica para câncer de reto teve taxas de conversão, complicações e sobrevida semelhantes às da laparoscopia, com custo maior por paciente19. Do ponto de vista da saúde baseada em valor, a adoção da robótica deve ser avaliada por indicação, considerando desfechos e custos, e não apenas a inovação tecnológica.

 

Internet das coisas médicas

A Internet das Coisas Médicas (Internet of Medical Things, IoMT) interconecta dispositivos biomédicos, sensores, equipamentos hospitalares e sistemas de informação clínica, com potencial para ampliar a eficiência, reduzir custos operacionais e melhorar resultados clínicos20. Estimativas de mercado projetam um volume global de US$ 145,23 bilhões até 203121. Barreiras regulatórias e baixa taxa de comercialização de soluções, contudo, limitam o acesso de profissionais e pacientes20. Ao conectar dispositivos, a IoMT também amplia a superfície de ataque digital e expõe dados sensíveis a interceptação, manipulação e indisponibilidade22. Arquiteturas que combinam criptografia homomórfica, que permite processar dados cifrados sem descriptografá-los, blockchain e IA para detecção de ameaças têm sido propostas para reduzir esses riscos22. No Brasil, a efetividade da Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais é desafiada por ameaças técnicas e limitações organizacionais, e a proteção dos dados depende, em grande medida, do fator humano23.

 

Impressão 3D e bioimpressão

A impressão tridimensional permite produzir, a partir de imagens de tomografia e ressonância, modelos anatômicos para planejamento cirúrgico, guias cirúrgicos e implantes personalizados. A ortopedia é uma das áreas mais beneficiadas, com componentes sob medida para fraturas complexas e artroplastias24. A qualidade desses produtos, porém, precisa ser controlada: em análise comparativa de cótilas acetabulares impressas de seis fabricantes, foram identificados defeitos de fabricação25. A bioimpressão 3D, que cria estruturas biocompatíveis capazes de imitar tecidos, é promissora para a medicina regenerativa e o transplante de órgãos, mas permanece em fase experimental26.

 

HOSPITAIS DE REFERÊNCIA EM TRANSFORMAÇÃO DIGITAL

Hospitais reconhecidos internacionalmente divulgam iniciativas de transformação digital que ilustram as tendências discutidas. As informações a seguir provêm da divulgação das próprias instituições e não foram avaliadas de forma independente. A Mayo Clinic e a Cleveland Clinic, nos Estados Unidos, relatam o uso de tecnologias digitais e de IA no diagnóstico, no planejamento terapêutico, na previsão de desfechos e na eficiência operacional, além de cirurgia robótica27,28. O Sheba Medical Center, em Israel, mantém um centro de inovação que reúne médicos, engenheiros e startups e descreve o uso de enfermarias virtuais, IA clínica em tempo real e logística autônoma29. A Universidade de Tsinghua, na China, anunciou uma plataforma virtual em que agentes de IA simulam atendimentos, exames e diagnósticos, ainda em fase de testes30. O Hospital Universitário de Aarhus, na Dinamarca, destaca o uso de tecnologia na gestão e participa de 19 Redes Europeias de Referência31.

No Brasil, o Hospital Sírio-Libanês informa usar uma ferramenta de IA para apoiar a documentação clínica e reduzir a carga burocrática, e o Hospital Israelita Albert Einstein informa operar mais de 100 algoritmos de IA para prever deterioração clínica, apoiar diagnósticos e melhorar o fluxo de pacientes; ambos relatam uso de telemedicina, realidade mista, cirurgia robótica e prontuário eletrônico32,33. Esses exemplos sugerem que a transformação digital depende de investimento continuado, interoperabilidade, capacitação das equipes e cultura organizacional voltada à inovação, mas seus efeitos sobre desfechos e custos não são informados de forma comparável.

 

DISCUSSÃO

As tecnologias discutidas têm potencial para apoiar a entrega de valor, mas a evidência disponível sobre seus efeitos em desfechos e custos é desigual. Para a IA em imagem, há muitas aprovações regulatórias, mas pouca implementação em larga escala9; para a realidade aumentada, faltam estudos comparativos17; e, para a robótica, um ensaio randomizado não mostrou benefício clínico que justificasse o custo adicional em uma indicação19. Na perspectiva da saúde baseada em valor, a pergunta central não é se uma tecnologia é inovadora, mas se melhora os resultados que importam ao paciente em relação ao custo2,3. Isso exige medir desfechos e custos por condição clínica, o que a maioria das instituições ainda não faz de forma integrada4.

Para gestores brasileiros, três implicações se destacam. Primeiro, a incorporação de tecnologias deve ser precedida de avaliação de desfechos e custos por indicação, e não apenas de projeções de mercado ou de exemplos institucionais. Segundo, a desigualdade de digitalização entre os setores público e privado7 pode ampliar iniquidades se a incorporação não for acompanhada de políticas de acesso no SUS. Terceiro, interoperabilidade, proteção de dados e governança da IA são pré-requisitos, e não etapas posteriores, da transformação digital11,23.

Este texto tem limitações. Trata-se de perspectiva baseada em fontes selecionadas de forma narrativa, sem busca sistemática, avaliação da qualidade dos estudos ou síntese quantitativa. Parte das fontes são revisões narrativas, notícias e sites institucionais, e as informações sobre hospitais refletem a divulgação das próprias instituições. As afirmações devem, portanto, ser lidas como tendências e hipóteses a serem verificadas por estudos com desenho adequado.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A maturidade digital da saúde ainda está abaixo da de outros setores, o que representa ao mesmo tempo atraso e oportunidade. Inteligência artificial, dispositivos vestíveis, realidade aumentada e virtual, Internet das coisas médicas, impressão 3D e robótica podem contribuir para a assistência personalizada e para a entrega de valor, desde que integradas a processos assistenciais, prontuários eletrônicos interoperáveis, capacitação das equipes, educação do paciente, regulação clara e proteção de dados.

A transformação digital pode apoiar a mudança de uma lógica centrada no volume para uma lógica centrada no valor e nos desfechos, mas essa mudança depende de medir resultados e custos de cada tecnologia em cada indicação. Cabe aos gestores combinar entusiasmo com avaliação rigorosa, governança de dados e atenção à equidade de acesso no SUS.

 

 

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Recebido: 29 de julho de 2026. Aceito: 30 de setembro de 2026

Correspondência: Edinisia da Silva de Oliveira   E-mail: edinisiadeoliveira@hotmail.com

Conflito de Interesses: os autores declararam não haver conflito de interesses

 

 

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