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ESTRATÉGIAS E PLANOS
Mário Cortella retrata as urgências para afastar o colapso
Filósofo Mario Sergio Cortella analisa os temas liderança, sustentabilidade econômica e cultura em um País de democracia recente e constantes mudanças. Opina também sobre o "Mais Médicos"
Uma mudança cultural está acontecendo e pode ser observada pelo início de uma consciência mais sustentável, pela possibilidade de utilizar o fazer à serviço do ser, pelas resistências na berlinda sendo forçadas à transformação, e pela democracia que começa a se assentar. Em entrevista à Revista FH, o professor Mario Sergio Cortella retrata as urgências para afastar o colapso de um período de intensa movimentação e aproveitar as oportunidades.

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Quem é Mário Cortella: Formado em filosofia, com mestrado e doutorado em educação, é professor titular de graduação e pós-graduação em Educação, Teologia e Ciências da Religião na PUC-SP e professor convidado da Fundação Dom Cabral.Consultor e conferencista nas área de Educação e Filosofia e autor de diversos livros, entre os quais: “Não Espere Pelo Epitáfio”, “Qual é a tua Obra?”, “Inquietações Propositivas sobre Gestão, Liderança e Ética”, “Não Nascemos Prontos!” e “Não se desespere! – Provocações filosóficas”.


FH: O que é ser sustentável para você?
Mario Sergio Cortella: Sustentabilidade é aquilo que afasta o colapso em qualquer tempo possível. O colapso é uma possibilidade e não uma obrigação. O colapso na totalidade da vida humana é algo possível, mas não obrigatoriamente necessário. E todas as vezes que a gente trabalha a ideia de sustentar significa manter em pé nosso negócio, nossa vida, nosso afeto, relacionamentos. Portanto manter em pé, sustentar, é impedir a derrocada, o esboroamento, o desabamento.

FH: Com base no tema "crescimento sustentado e sustentável", as empresas estão realmente empenhadas nessa questão ou tudo ainda não passa de um discurso?
Cortella: As empresas mais inteligentes, com maior capacidade e inteligência estratégica estão, sim, organizando seu negócio para que ele não seja autofágico, isto é, autodestrutivo, que leve à capacidade de um biocídio, não permitindo a existência de um lucro tóxico, uma convivência degradada e um futuro desertificado. Desse ponto de vista, nós estamos ainda no fim do começo ao invés de no começo do fim. Mas já temos uma consciência maior a exemplo de algumas empresas que mostram que não pode haver outro caminho e que, portanto, ele é um ponto de partida. Isso não nos acalma, mas nos anima.

FH: Falar em crescimento sustentado e sustentável engloba uma série de práticas como governança corporativa, planejamento de longo prazo, gestão de pessoas, entre outros. Na sua visão qual prática ou valor é fundamental para atingir a sustentabilidade?
Cortella: É uma percepção de natureza erótica, que vem do eros, ou seja, aquilo que desejamos. O desejo de ter uma vida que seja vivida com intensidade, sem sofrimento inútil, sem destruição tola e ao mesmo tempo sem sacrifício desnecessário. Temos hoje o pragmático, o que é utilitário, e eu estou falando de um desejo mais fundo de vida coletiva, uma erotização da questão da sustentabilidade. Nós conseguimos erotizar uma calça jeans, torná-la um desejo, assim como um carro. Temos que erotizar, tornar um desejo, uma vida sustentável para todos.

FH: Diferentemente, muitas vezes, de como é encarada, a sustentabilidade estaria mais próxima do ser do que do fazer?
Cortella: Esse pragmatismo, esse utilitarismo sempre serve para algo ao invés de possuir um valor essencial. O essencial é aquilo que não pode não ser, como a amizade, lealdade, afetividade, religiosidade, sexualidade, fraternidade. O fundamental é o que ajuda a chegar ao essencial, os meios materiais como finanças, carreira. Por exemplo, o dinheiro não é essencial, mas fundamental. Sem ele, você tem problema, mas ele em si não gera a vitalidade necessária para existir. Assim, ser está ligado à essencialidade, enquanto o fazer à fundamentalidade. Os nossos negócios são fundamentais enquanto amizades, afetividades (…) são essenciais. Do contrário, a nossa mortalidade, que em nós é essencial, se torna não um horizonte, mas uma vivência cotidiana com as pequenas mortes que vamos tendo, que são as nossas decepções, infelicidades, mortes do dia a dia. Daí a necessidade de usar o fazer à serviço do ser.

FH: É possível conciliar sustentabilidade com crescimento da economia?
Cortella: Não há o que não seja possível quando a gente decide que poderá ser possível naquilo que a gente já fez. O mundo que estamos é obra nossa. Nenhuma divindade demoníaca ou divina veio à tona e organizou esse mundo. Ele é fruto da nossa obra. E, se nós assim fizemos, podemos fazer de outro jeito. Aí está colocada a possibilidade – mais do que um desejo hoje, é uma urgência. Se nós não fizermos isso, estamos sendo tolos. Qualquer pessoa que tiver estudado a história da humanidade terá visto o quanto as sociedades altamente poderosas entraram em colapso como um buraco negro que arrasta tudo a volta quando entraram em crise de valor. Embora a frase que eu vá dizer seja do século I, carpe diem, que significa aproveite o dia, do latim, ela só vai ter validade mesmo no século V, quando o fazer e o possuir eram o que importava. Por isso o lema era aproveite o dia porque não haverá amanhã. Estamos de novo com essa sociedade consumista e hedonista. Portanto essa densa questão de afastar esse risco é uma urgência, e não apenas um desejo.

FH: Qual a importância do líder nesse caminho e quais características ele possui?
Cortella: Temos a necessidade de uma liderança que não seja personificada, isto é, que não esteja pessoalizada em alguém. O conceito de liderança, como sendo aquilo que inspira, anima e motiva, precisa ser disseminado no conjunto da vida coletiva. Nenhum de nós é capaz de liderar qualquer coisa, mas nenhum de nós também é incapaz de liderar alguma coisa. E aquilo que eu posso liderar, eu devo fazê-lo. É uma liderança muito mais diluída e portanto com uma força de penetração no conjunto da vida. O mundo globalizado, as democracias que se constroem, as interconectividades das plataformas digitais nos levam a ter uma outra visão de liderança, que não é mais a do passado clássico, nem do século XX, concentrada em figuras como Mahatma Gandhi, Martin Luther King e Nelson Mandela. Todos necessários para aquele momento, mas umasociedade interconectada precisa ter uma liderança partilhada.

FH: O médico pode ser esse líder, pois embora ele seja um ator fundamental na assistência, também costumam ser resistente às inovações?
Cortella: A medicina está, cada vez mais, com maior capacidade de cuidar. Cuidar passa pela integralidade, não sendo fragmentada, estilhaçada. Portanto, a medicina especialmente é capaz de ajudar a saúde planetária e humanitária. Aqueles do campo da medicina mais resistentes precisam ter uma disposição, uma inclinação para romper esse tipo de barreira, afinal de contas, aquilo que é urgente hoje não pode sofrer adiamentos por conta de idiossincrasias, ou seja, porque eu não quero perder o meu modo de fazer, eu deixo de fazer o que tem que ser feito. Sendo que muitas vezes o que tem que ser feito é contrário ao modo que eu estou habituado a fazer. Para citar um dos grandes cientistas da história, Albert Einstein, ‘tolice é fazer as coisas sempre do mesmo jeito e esperar resultados diferentes’.

FH: Qual a sua opinião sobre o programa Mais Médicos?
Cortella: Decisivo para uma nação como a nossa. Ele tardou em vários momentos. Não deve ser apenas um programa de governo, tem de ser um programa de nação, que envolva o conjunto das instituições de formação como universidades, faculdades, hospitais, redes de apoio, tudo aquilo que nos conecta para impedir o inacreditável – o homicídio cotidiano por omissão. Há uma frase antiga que diz que os ausentes nunca tem razão. Pode haver necessidade de ajustes, mas é preciso olhar para o sucesso que outras nações obtiveram na área de saúde coletiva, especialmente em saúde sanitária. Não pode de maneira alguma ser postergado. É preciso neste momento fazer a implantação, promover os ajustes, ouvir as entidades, seja na área de formação, de prestação de serviço, mas não se pode adiar. Como dizia o Betinho [sociólogo Herbert de Souza] quando criou a campanha contra a fome: ‘quem tem fome, tem pressa’, e isso vale para a saúde.

FH: Como você julga a reação do governo brasileiro às recentes manifestações populares? Acha que elas são um meio de melhoria efetiva?
Cortella: Toda manifestação em uma democracia que se constrói leva de fato a um crescimento. Nossa democracia não tem 30 anos. O Brasil é um País que tem 513 anos e a democracia não está presente nem em 10% do nosso tempo histórico. Estamos aprendendo, e não é só o governo que está aprendendo, mas o conjunto da sociedade. Em um primeiro momento, ir para as ruas como aconteceu em junho foi, de fato, um símbolo bom e forte. Em um segundo momento, o desajuste entre o modo de manutenção da ordem das autoridades, unido a alguns movimentos mal intencionados, levaram a quebra não só de janelas como do próprio movimento, que arrefeceu forças. É necessário o entendimento de que estamos no início. Venho propondo que a gente comece a fazer uma passeata na rua contra aqueles que votaram nos que estão no poder e que são foco de passeatas. Eu estou revoltado com gente que escolhe mal.


Fonte: Revista FH
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