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24/02/15 - Do apagão ao clarão na saúde
Artigo de Claudio Lottenberg na Folha de S. Paulo
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Como todo paciente em estado grave, o Brasil precisa de terapia intensiva com o apoio de todos que possam ajudar em sua recuperação

Um diagnóstico do Brasil neste momento mostra um paciente em estado grave. Sinais vitais da economia, como inflação, juros, taxa de desemprego e índice de crescimento recomendam cuidados.

O maior patrimônio empresarial está debilitado pelo cancro da corrupção. A síndrome do apagão causa perturbações no cotidiano das famílias, das instituições que prestam serviços, da indústria e do comércio. A falta de ética contamina relações políticas e sociais. A ganância fiscal aumenta a obesidade de órgãos públicos esclerosados. A descrença na classe política dissemina uma apatia quase generalizada na sociedade brasileira.

Na saúde, que já apresenta problemas crônicos, o prognóstico é preocupante. Embora o setor seja responsável pela movimentação de 9,3% do PIB nacional, o investimento per capita é proporcionalmente muito inferior ao que é gasto em outros países, chegando a pouco mais de US$ 1.000 por ano.

Isso num cenário em que as despesas de saúde registram altas superlativas. De 2004 a 2013, por exemplo, cresceram 133,7%, mais que o dobro da variação do IPCA no mesmo período (60,1%).

Pior que a escassez de recursos é o desperdício. Milhões e milhões de reais que deveriam servir para melhorar a assistência médica, a saúde e o bem-estar das pessoas, são drenados para sistemas viciados como gestão perdulária, ineficiência de processos, judicialização, corporativismo e regulação anacrônica.

O aumento da população com mais idade, advento de novas drogas, mudanças no estilo de vida e inovações tecnológicas tornam mais complexa a gestão da saúde e sua sustentabilidade financeira.

Em todo o mundo, autoridades públicas e representantes do setor privado buscam fórmulas para alcançar um modelo saudável. O Brasil, no entanto, persiste no erro de ministrar os paliativos programas compensatórios.

Há outros sintomas graves, como o resultado do recente exame de avaliação do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo. De 2.411 formandos de 28 escolas médicas do Estado, 54,5% foram reprovados porque não conseguiram responder ao menos 60% das questões em nove áreas básicas sobre medicina.

Como todo paciente em estado grave, o Brasil precisa de terapia intensiva com o apoio de todos que possam colaborar para sua recuperação. O hospital Albert Einstein, com 60 anos de história e liderança em saúde no Brasil, não poderia deixar de contribuir, e atua em várias frentes.

No campo da formação, onde já mantém cursos técnicos, graduação, pós-graduação e MBA, com 3.500 alunos, o Einstein lançará em breve a sua faculdade de medicina.

No âmbito de parcerias públicas, no primeiro semestre deve ser aberto um hospital público de alta complexidade em São Paulo para atuar, principalmente, na realização de transplante hepático para pacientes do SUS (Sistema Único de Saúde) -- será o segundo sob gestão do Einstein na periferia da cidade.

Os desafios presentes na área da saúde exigem visão multidisciplinar e novas abordagens. Neste sentido o Einstein, desde o ano passado, tem reunido alguns líderes e visionários de várias partes do mundo, para repensar saúde, debater a medicina do amanhã e, à luz de experiências internacionais bem sucedidas, encontrar novos elementos para oxigenar as discussões no nosso país.

São iniciativas importantes que, isoladamente, não vão resolver os problemas de saúde no Brasil, principalmente considerando a conjuntura desfavorável do momento. Mas representam mais uma contribuição em busca de um cenário onde a sociedade brasileira possa vislumbrar algum clarão.

Sob essa perspectiva é importante o compromisso com a atitude coerente de quem deseja melhorar o nosso país.

CLAUDIO LUIZ LOTTENBERG, 54, é presidente da Sociedade Beneficente Israelita Albert Einstein


Fonte: Folha de S. Paulo – 22.02.2015
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